Sábado, Novembro 25, 2006

Espelho, espelho meu.

Se eu chegar a questionar se, de fato, existe alguém mais bonito que eu, a pergunta seria retórica, então lhes pouparei os olhos e os comentários rasga-seda. O que na realidade me motiva a escrever esse post é a amplitude que a beleza vem ganhando nas mídias e veículos de comunicação, sendo pauta difundida em espaços outrora não muito interessantes – como os programas jornalísticos e os sensacionalistas. Outra vez, os ideais de beleza voltam a povoar as rodas de discussão, a mítica da estética corporal transforma-se numa estátua oxidada a ser martelada e o cérebro das modelos é posto em xeque. Aquilo que se apregoava: dietas, malhação, suplementos, passam a ser a maçã comida por Eva no paraíso, e é isso que passam a ser as garotas raquíticas: moças inocentes, inebriadas pelo alcance de um objetivo homérico, impalpável, que, à sua percepção, era tangível.

A grande serpente, seguindo analogia, não poderia ser outro ícone que não a própria mídia. Ela, que após traçar sinuosas curvas pelos mares de gente, acaba por morder o próprio rabo: divulgava as receitas para adquirir o corpo perfeito, propunha-se acasalar com o primeiro centro de estética que visse pela frente, dando luz a inserções diárias, os vulgos merchandisings – que, convenhamos, não têm nada de merchandising. O momento da mordida em seu rabo, estridente e escamoso, é o que nos é apresentado atualmente, em que, defensora das diferenças étnicas, sexuais e morais, ela se propõe a questionar até que ponto a busca, que ela mesma deu início, é válida. Os dentes afiados vão se escondendo, a língua solta endireita-se e assistimos ao seu hipócrita processo de antropomorfismo: ganha pernas, braços, órgãos e, é claro, o que dizia faltar naquelas garotas, o cérebro.

O que ninguém tem coragem de dizer é que, usando o bom e velho inglês barato, almost anybody ain’t got the balls to do it. Mas, fazer o quê? Destruir o castelo que fora previamente construído com areia? Comover-se com o fato de que, diariamente, milhares de meninas põem o dedo na goela, expelindo o bolo alimentar de digestão precária? Ou atentar-se às pessoas que convivem ao nosso redor, provocando alardes quando se notar o primeiro sintoma de bulimia/ anorexia?

De minha parte, admiro a vontade incessante em se conseguir um corpo legal, digno de elogios e comentários positivos, nem que para isso tenha de se sujeitar a condições inumanas de sobrevivência. O processo de “embelezamento” em si já é doloroso e conflui somente os que traçaram objetivos concretos e não se deixam levar pelo primeiro brigadeiro exposto na prateleira da padaria. Que fique claro que não estou dizendo: “ei, leitor, levante essa bunda da cadeira, entre numa academia, pare de comer e se encha de drogas”. Não é a isso que quero visar; o que incomoda é o fato de a maioria dos críticos nunca ter se sujeitado a algum tipo de dieta, maluca ou não, e preparar sua saraivada de nonsense com o primeiro caso de morte com que se deparam.

Haverá sempre os bem intencionado, como os responsáveis pelo novo posicionamento da Dove na Campanha pela Real Beleza. Todavia, tenho o péssimo hábito de desconfiar de qualquer coisa a partir do momento em que ela passa a ser veiculada na mídia, o que me garante, na maioria das vezes, a típica gargalhada final:


O espelho não é opaco nem lhe indica os caminhos a serem traçados para que se alcance o corpo ideal. Somos vitimados, sim, por nossa consciência: se pesada, fará com que seu dono procure alternativas a fim de que o dano cometido seja reparado por uma dieta balanceada; se singela, será acometida por um susto repentino quando o dono sofrer algum distúrbio alimentar e/ou doenças curadas apenas pela ingestão regrada de remédios. Esses acabarão, em fim, sendo iguais àqueles. Só que ninguém admite. Talvez o que haja de mais louvável no cristianismo seja a preocupação com o templo em que se instala o Espírito Santo, o corpo. Abre-se mão de uma série de práticas, com o fim único de respeitar a fisiologia. Não obstante, a consciência também entra na dieta, colhendo os frutos semeados pelo temor divino :)

3 Comments:

Blogger Serginho said...

o criador critíca a criatura? é isso mesmo? adorei o tom ácido. . . quanta revolta contra a mídia hein.

Adorei o vídeo. me passa o link.

11:40 PM  
Blogger triúnviro said...

Não é revolta contra a mídia -- até porque dependemos dela --, mas contra aqueles que a constituem.

O vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=fz5IRdFIpvA

10:31 PM  
Blogger Nina said...

Putz... leva tempo pra conseguir ao menos se situar nesse mundo doido que eh a midia, brow... principalmente pra entender o p.. paradoxo q isso virou!! Dio!!
De um lado um programa com varios nutricionistas, psicólogos e tralálá dizendo que "o importante eh ser saudavel", logo nos comerciais bombardeiam imagens daqueles modelos bem sucedidos, felizes, enfim... aquele esteriótipo conhecido. Daí eh um passo pro uso de anfetaminas, apelar pra esses casos de bulimia e chegando ateh a anorexia, sem contar as outras drogas, suplementos, bolas.... eh sinistro!

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Enton, sobre o Teatro Municipal... vai ter uma apresentação de grátis lá, parece ser buena.. mas cai no meio da semana... os outros parecem ser buenos tambem, mas sao pagos... vou deixar o link aqui, ai vc da uma olhada certo!?
http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/theatromunicipal/programacao/prog.asp
Adieu Doudie!!! Bisous!!!

10:54 PM  

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